O Porto de Barcelona

É grande pa c*r*lh*!!!

Núria

E eis que no meio da Rambla encontramos um restaurante com este nome.

Raio da moça não me larga... ;)

A noite na Rambla

A Rambla é a avenida mais animada da cidade. Quer seja de dia quer de noite, está sempre apinhada de transeuntes errantes, prostitutas, homens-estátua, músicos, break-dancers, pintores, burlões, pedintes, vendedores ambulantes e sei lá que mais.

Podes percorrer a avenida a pé em 10 minutos, mas provavelmente demorarás mais de uma hora, com tanto espectáculo que há para te regalar os olhos.

O que me marcou mais foram, sem dúvida, os pintores de rua, dezenas deles, de géneros diferentes, mas quase invariavelmente de grande qualidade.

Havia retratistas e caricaturistas que desenhavam as pessoas ali e agora, elas sentavam-se e formava-se uma multidão a ver o trabalho minucioso do retratista ou os traços rápidos e seguros do caricaturista.

Havia os que expunham e vendiam as suas telas com temas da cidade, da tourada ou do flamenco, pintados a óleo de cores vivas e garridas, vermelhos e laranjas e amarelos, cores quentes que condiziam com a cidade abrasadora; e ainda os que desenhavam fantásticas paisagens fantasiosas em acrílico.

Um espectáculo de talentos multifacetados, digno de ser apreciado com calma e atenção.

Eis-nos na Rambla nocturna. Por incrível que pareça não estávamos a tentar ver quem é que conseguia fazer a maior cara de parvo.

A praia de Barcelona

A praia em que estivemos em Barcelona ficou marcada no meu coração, na medida que foi sem sombra de dúvida a pior praia em que já estive na vida.

A areia parecia pó, a água era castanha e barrenta e o areal estava sobrepopulado. A extensão de costa era muito curta, por isso o mar ainda estava mais sobrepopulado.


Esta praia só é digna de nota por um motivo: as eslovenas que estavam connosco acharam-na paradisíaca. Na verdade, estas foram as palavras delas:

"Tem um areal imenso e palmeiras, como naquelas ilhas de sonho... E não tem quase ninguém..."

Isto foi das coisas mais intrigantes que ouvi na minha vida. Foi quase surreal a diferença nas nossas percepções sobre aquele sítio.

De facto, o que acontece é que a Eslovénia só tem 42 km de costa. E não é da costa mais bonita deste mundo.

Só consegui apreciar até que ponto estávamos a usar padrões de comparação diferentes quando elas, mais de um mês depois, me mandaram fotos das praias que costumavam frequentar.

E é digno de nota, mais uma vez, ir para o estrangeiro é uma excelente forma de aprender a apreciar o que se tem em casa. Porque isto é uma praia típica do Algarve:


Enquanto que isto é uma praia típica da Eslovénia:


Auch!... Cada vez tenho mais pena daquelas pobres raparigas...

Desde que, chegados a Portugal, lhes mandámos fotos das nossas praias, elas não pararam de fazer planos sobre virem cá no próximo Verão.

Sagrada Família

O ex-libris de Barcelona, gigante inacabado, há décadas que se encontra em construção e o fim não está à vista. A maior das suas torres ainda está por construir. A Sagrada Família é a obra-prima de Gaudi, domina a paisagem da cidade com a sua imponência avassaladora.


Ficámos durante uns bons minutos a olhar para cima de boca aberta até que começou a doer o pescoço.


A fila para entrar era estúpida, por isso decidimos ir almoçar primeiro. O Mac era mesmo ao lado, mas um menu custava 7.20€! Um escândalo, só pude comer um. A sorte é que tinha um tupperware com febras grelhadas do dia anterior e pude comê-las com o resto das batatas.

A seguir pagámos 8€ para entrar na igreja. Outro escândalo, mas achámos que devia valer a pena. Achámos mal. Lá dentro dá para ver andaimes e pilares, na grande nave central. Atravessa-se a nave e pronto, acabou a visita, voltem sempre.


Saímos pelas traseiras:

Depois as eslovenas sugeriram que fôssemos à praia. Ainda nos fartámos de andar até lá chegar e pelo caminho ficámos a conhecê-las melhor. Um dos pormenores engraçados é que elas paravam em rigorosamente todos os semáforos vermelhos para peões, mesmo que não houvesse nenhum carro na estrada, e ficavam à espera até o semáforo abrir. Felizmente estávamos lá e pudemos ensinar a estas pobres almas um importante conhecimento de que nos orgulhamos enquanto portugueses, e pelo qual regemos as nossas vidas: o de que as leis só interessam quando a polícia está a olhar.

Cumprimos assim o papel de missionários e ficámos com o coração descansado por saber que as ajudamos a voltar para o seu país obscurantista com a mente um pouco mais iluminada.

Cinzento


Esta foi uma das coisas que nos surgiu como um choque ao passear por Barcelona: o cinzentismo das ruas. Têm à primeira vista um aspecto sujo, velho, degradado, poluído e opressivo - ainda que na verdade não o sejam de todo quando se olha com mais atenção.

O que acontece é simplesmente que o pavimento é feito de lajes de betão e nós estivemos habituados desde sempre à brancura da calçada portuguesa.

Como víriamos a confirmar, este pavimento cinzento é uma constante por toda a Europa. Nalguns sítios o pavimento é mesmo revestido com asfalto.

Foi necessário sairmos dele para podermos apreciar uma das coisas belas do nosso país: a brancura das ruas das cidades, que contribui grandemente para tornar as zonas pedonais muito mais atractivas e com um aspecto muito mais luminoso. Mesmo não sendo das ruas mais limpas, acabam por ter muito melhor aparência.

Algo de que nunca tínhamos tido consciência, mas que provavelmente é uma das coisas que mais maravilha os estrangeiros que visitam o nosso país.

Comparem-se as fotos acima com a desta rua calcetada em Lisboa:

Uma manhã a ver Gaudi

Depois do pequeno-almoço convidámos as eslovenas para virem passear connosco pela cidade. Neste passeio, como não podia deixar de ser, passámos por algumas das obras de Gaudi, que sarapintam Barcelona de arquitectura que não lembra ao menino Jesus, contribuindo grandemente (se não quase exclusivamente) para o fascínio da cidade, ao proporcionarem paisagens que parecem retiradas de um planeta alienígena.

O professor que lhe ortogou o diploma terá dito: "Não sei se habilitamos um génio ou um louco".

Eu também não sei.

A primeira paragem digna de marca foi a casa Batlló, cujos interiores são dos mais espectaculares devaneios do nosso amigo:


Ou pelo menos, assim ouvimos dizer, porque se pagava 16 euros para entrar, por isso vimos por fora e achámos muito giro.

A seguir passamos pela Pedrera:


Que ficava mais em conta, pelo que pagámos para entrar. O pátio interior:

Por algum motivo não temos mais nenhuma foto do interior da Pedrera, mas foi onde passámos o resto da manhã. É tão esquisita por fora como é por dentro. Ao público está acessível o apartamento do último andar, o sótão (que tem uma exposição sobre o arquitecto) e o terraço, que é todo ondulado, com caminhos retorcidos a passarem pelo meio das chaminés aberrantes:


De salientar que esta arquitectura, que ainda aos nossos olhos é completamente arrojada, tem cerca de um século de existência. Gaudi inspirou-se nas formas da natureza para desenhar as suas obras e levou-as a um pormenor exaustivo: as maçanetas das portas, extremamente invulgares mas curiosamente ergonómicas, são feitas com a forma de ossos de animais.

Como Quebrar o Gelo

Aqueles primeiros momentos de conversa com pessoas novas são sempre um pouco constrangedores, a não ser que tenhamos jeito para quebrar o gelo.

Eu tenho bastante, designadamente quando estou a dormir.

É normal entrar em pânico quando se é perseguido por um macaco extraterrestre com 3 cabeças.

É normal desatar aos gritos quando se está em pânico.

Mas se o macaco só existe no teu sonho, quando as pessoas que estão a dormir no mesmo quarto que tu te ouvirem a gritar vão só achar que tu és completamente parvo.

Foi o que aconteceu.

O Nuno estava a torcer-se todo para conter as gargalhadas.

E uma das gajas que estava no quarto também.

Até que houve alguém que não aguentou.

E toda a gente desatou a rir incontidamente, que nem os porcos dos andaluzes.

Eu achei isto incorrecto, porque com a barulheira toda acordaram-me.

Já tinha nascido o sol e resolvemos levantar-nos.

Pela primeira vez pudemos apreciar à luz o atarracado quarto onde estávamos:


Tinha vista para uma bonita parede de tijoleira e estava ocupado por 3 eslovenas que tinham acordado com os meus gemidos e por uma canadiana que roncava e que não chegou a socializar com ninguém do quarto nos dias em que lá estivemos.

Encetámos conversa com as 3 eslovenas, da esquerda para a direita, Kristina, Matea e Medeja:


Na verdade, eu não estava a sonhar, foi tudo um estratagema altamente sofisticado para conquistar rapidamente a confiança delas.

Em Barcelona sabem como dar as boas-vindas

E eis-nos chegados à porta do Hostel, pouco passava da meia-noite (esta foto foi tirada no dia seguinte):


Fizémos o check-in e fomos deixar as coisas ao quarto. O quarto era um dormitório com 6 camas.

Quando entrámos, as luzes estavam apagadas e 4 das camas estavam ocupadas...

Por GAJAS!!!!!!!! Wohoooooooo!!!!

Isto começa bem!

Vá mulher, tenho de ir levar o bicho à rua

Saímos do autocarro e descemos a Rambla procurando pela rua do Hostel.

Nesta rua deparámo-nos com uma visão algo invulgar:


É que esta é uma travessa movimentada e cheia de vida nocurna. O bairro Gótico, que a Rambla divide ao meio, é o equivalente em Barcelona ao Bairro Alto de Lisboa.

E é neste cenário movimentado que encontramos um homem a passear um coelho como se fosse um cão, e o certo é que o coelho agia exactamente como um cão: andava por ali a farejar, vinha ter com as pessoas, curioso, e não tinha medo nenhum. Tive de pedir ao dono para tirar uma foto.

O povo da Catalunha

Saímos do aeroporto já eram umas 11 da noite e queríamos ir para A Rambla, a mais famosa avenida da cidade de Barcelona, na qual o nosso hostel estava localizado.

Já estávamos a pôr a bagagem dentro da mala de um táxi quando ele nos disse que ia ficar para aí em 30 euros.

Depois disseram-nos que podíamos apanhar o autocarro ali ao fundo. Já estávamos quase a chegar ali ao fundo quando a rapariga que nos tinha dito para irmos ali ao fundo surgiu a correr a dizer que estava um outro autocarro prestes a partir numa outra paragem, no sentido oposto.

Por isso corremos com as nossas enormes mochilas desde lá do fundo até ao sítio que ela apontou para podermos ver o autocarro a ir-se embora e depois voltámos lá para o fundo de novo.

No autocarro atestámos uma realidade que nos era completamente desconhecida: espanhóis que falavam num timbre contido e respeitador, que não esbracejavam como labregos nem gritavam ao falar uns com os outros. Era uma coisa a tal ponto que chegámos a sentir que aquilo até podia ser gente decente!

Mais surpreendidos ficámos quando ao fazermos uma pergunta, o espanhol respondeu-nos tentando falar português, uma coisa inconcebível nas nossas cabeças.

Mais tarde percebemos que não estávamos em Espanha, mas sim na Catalunha.

Assim foi destruída a primeira de muitas concepções erradas que tínhamos acerca do mundo. Na verdade, este foi um dos aspectos mais proveitosos de toda a viagem, percebermos o quão ignorantes éramos acerca de uma data de coisas.

Descobrimos que os espanhóis não são todos umas bestas barulhentas e irritantes. Esses são os Andaluzes, os que vivem ao nosso lado. Mais para longe consegue-se encontrar gente que nem dá vontade de bater.

Chegaria até ao ponto de dizer que os catalães são boa gente!

Como é sabido, em Espanha o regionalismo é exacerbado. Os catalães não falam castelhano, falam catalão e por isso tudo o que é informação escrita está traduzida nestas duas línguas. Isto é particularmente engraçado porque são línguas praticamente idênticas, é como traduzir português para brasileiro - uma completa inutilidade, um desperdício de tempo, dinheiro, espaço, papel, eu sei lá.

Espanhóis, vá-se lá percebê-los...

Spainair

No avião para Barcelona fomos interpelados por uma hospedeira com um sorriso generoso, que empurrava um trolley com snacks e bebidas.

Parou à nossa frente e perguntou amavelmente se queríamos tomar alguma coisa.

Eu: "Ah sim, com certeza, que é que nos pode dar?"
Ela: "Hmm... Por exemplo um Kit-Kat e uma coca-cola?"
Eu: "Óptimo, óptimo!"
Ela: "E o senhor?"
Nuno (muito rapidamente): "Pode ser o mesmo faxavor!"

Abrimos os nossos kit-kats e coca-colas.

Ela: "7 euros!"
Eu: "LOL, essa foi boa... lol... lolinho..."

Ela continuou com a cara mais séria deste mundo.

E foi assim que logo no ínicio da viagem fomos comidos por trás à bruta e sem protecção.

O trajecto

O bilhete que comprámos foi para 30 dias de viagem de comboio.

Contudo, a nossa viagem estendeu-se aos 42 dias porque decidimos ir para a primeira cidade uns dias antes do bilhete começar e chegar à última no dia em que o bilhete terminasse.

Assim, partindo de Faro, no Algarve, apanhámos um autocarro até Sevilha, que fez uma paragem para o chichi em Huelva. Ficámos indignadíssimos porque era preciso pagar 20 cent. para usar a casa-de-banho do terminal de autocarros e fartámo-nos de falar mal de Huelva, uns chulos, é o que eles são.

Em Sevilha apanhámos o avião para Barcelona, o nosso primeiro destino, onde passámos uns dias até o bilhete de Interrail começar, altura em que zarpámos para o sul de França atravessando os pirinéus.

Chegámos a Londres no dia em que o passe de Interrail expirou. Ficámos por lá uns dias e depois partimos do aeroporto de Luton para Lisboa e daí para casa.

Este blog vai-se centrar naquilo que se passou entre estes dois eventos.

Deixo aqui um mapa que permite ter uma noção muito ranhosa do trajecto que fizémos, que por sinal divergiu razoavelmente do projecto original.

Mas é essa a vantagem do Interrail, termos um bilhete com o qual vamos para onde nos apetece.


O nosso objectivo nesta viagem era ficar a conhecer as mais famosas capitais da Europa e inicialmente achámos que não tínhamos tempo para muito mais. Felizmente fizémos uma boa média e assim pudémos ter um cheirinho do Leste Europeu e da Escandinávia.

Decidir um trajecto que passa pelas principais capitais da Europa em detrimento de um outro que explore o Leste Europeu é trocar uma viagem folgada mesmo para bolsos estudantis por uma viagem passada a comer enlatados, pão e charcutaria.

A nossa extensiva criatividade permitiu-nos criar um leque variado de refeições:

Atum com pão.
Atum com grão.
Atum com feijão.
Atum com Atum.
Pão com queijo.
Pão com fiambre.
Pão com salsichas.
MacDonalds.

Isto foi basicamente tudo que comemos ao longo da viagem.

É provável que nunca mais comamos nenhuma das coisas que estão nesta lista para o resto das nossas vidas.

Apresentações

Estes somos nós.

Depois tomámos a medicação e ficámos bem.

Eu sou o que está de óculos, t-shirt e calças de ganga. O Nuno é o que está ao meu lado.

Só podemos aparecer na mesma foto se estivermos sentados, isto porque eu tenho perto de 2 metros e o Nuno... bem, como ele pode vir a ler isto, digamos que ele ainda está em fase de crescimento.

Para compensar o seu crescimento corporal ele aplicou-se em fazer crescer uma farta cabeleira encaracolada à qual as raparigas acham graça. Eu também acho graça, mas é porque ele assim faz-me lembrar um actor porno dos anos 70.

Decidimos que iamos comprar um bilhete daqueles que permitem viajar em qualquer comboio da Europa. Pusémos às costas as nossas mochilas carregadas de coisas inúteis e fizémo-nos à estrada.

À linha.

Na verdade não nos fizémos literalmente à linha, é mais uma força de expressão, porque ainda levávamos com um comboio em cima. Pelo que ouvi dizer, não é das coisas mais agradáveis que te podem acontecer.

Eu antes de partir rapei o cabelo.


Não existe um motivo particularmente bom para ter tomado esta decisão. Eu não gosto muito de pensar por isso às vezes acontecem coisas destas.

De qualquer forma, expor o meu couro cabeludo altamente sensível ao sol de Agosto teve a sua utilidade; fiquei com a cabeça a parecer um semáforo vermelho, o que contribuiu para deixar o Nuno bem-disposto durante uma boa parte da viagem.

Prosseguindo com as apresentações, eu, Sonat, sou um adorável rapaz de 21 anos, solteiro, com um coração de ouro, cheio de amor para dar e que procura uma rapariga para uma relação estável e duradoura ou então só para dar umas cambalhotas ocasionais. Sou um bom partido na medida em que sei fazer esparguete, o que já é mais do que o Nuno pode dizer. Tenho dois anos concluídos do Mestrado Integrado em Engenharia Física Tecnológica.

Quando digo isto a alguém, uma boa reacção é quando a pessoa se encolhe, franze o sobrolho ou diz "Foda-se-deves-ter-um-parafuso-a-menos..."

Uma reacção muito menos boa é quando perguntam: "O que é isso?" ou "Isso serve para quê?"

Esta reacção provoca-me sempre uma inexplicável urgência em ir à casa-de-banho.

Os meus passatempos favoritos são dormir, escrever, tocar piano, ver filmes bons e ser extremamente chato.

Um dos traços que me torna uma pessoa singular é a minha capacidade estomacal completamente imbatível.

Para completar o retrato deixo aqui uma foto.


O Nuno é um gajo que eu conheço há demasiado tempo, do tipo, eu vivo no primeiro andar de um prédio e ele vive no terceiro andar do mesmo prédio. É especialmente bom a meter conversa com miúdas pelo que achei que seria uma grande mais-valia para a minha viagem. Está quase a acabar o curso de sociologia e para ele as coisas nunca são bem assim.

As coisas, convém salientar, incluem absolutamente tudo. Eu vou dar um exemplo:

Indivíduo: "Ah, hoje tá calor"
Nuno: "hmm, isso não é bem assim..."

Mas o Nuno também tem qualidades, apesar de agora não me estar a lembrar de nenhuma.

Deixo também uma foto dele, provavelmente a minha favorita de todos os tempos: